O Louco, carta na posição normal
O Louco é a única carta sem número. Ela vem antes de todas as outras, no início do ciclo, e também pode marcar o recomeço depois da última. Fala de uma partida: você está num ponto de partida da sua vida e avança leve, às vezes com pouco conhecimento e sem muito preparo. Essa partida vem de uma sensação profunda mais do que de um plano cuidadosamente calculado. Muitas vezes começa com uma ruptura com as suas certezas, com a ordem social, com o conforto intelectual, às vezes com a imagem que você tinha de si. Você olha o que a cerca com um olhar novo, sem cansaço nem preconceitos. Você ainda não está apaziguada nem unificada: se põe a caminho enquanto a sua parte instintiva a segura e algumas das suas forças se contradizem.
A carta fala de coragem e de otimismo e a convida a ter fé em você e na vida. Quando as pessoas à sua volta a pressionam a ser prática, ela lembra que o seu íntimo é o que está mais bem situado para dizer o que fazer. Ela aparece em cada passagem difícil e a incentiva a continuar apesar do medo; sem esse impulso, você correria o risco de parar no que já alcançou. Você age com ardor e movimento, às vezes sem pensar, e mistura a imaginação e o instinto.
Você questiona a ordem estabelecida pelo desvio, mais do que pelo confronto direto, e diz livremente o que os outros não ousam dizer.
No plano espiritual, a carta fala de ideia, de pensamento e de desejo de ir além do terra a terra. No plano material, quando está mal posicionada, fala de extravagância, de excentricidade e de atos irrefletidos. O seu ponto essencial é um impulso original, sutil e repentino, que vem de um lado inesperado. Esses impulsos são certeiros se você os recebe bem: o que a carta lhe traz de bom ou de ruim depende da sua atitude.
Você nunca chega ao limite das suas possibilidades: sempre pode dar mais um passo e, depois de um beco sem saída, pode voltar um pouco atrás, até um ponto de onde se possa avançar. Sem um objetivo fixado, você não pode nem perder o seu caminho nem fracassar.
Seus pontos fortes
Você é espontânea, entusiasmada e livre e tem a alegria de uma criança. É aberta ao novo e tem imaginação e fantasia. Tem coragem e otimismo e confia na vida. Está disponível: sabe pouco, mas ousa aprender. Segue o seu caminho sem se deixar deter pelas resistências do mundo. Viaja leve, só com o necessário. As suas lembranças e as suas experiências passadas não a dirigem como costumam dirigir as pessoas.
O que te freia
- Falta-lhe afirmação e continuidade nas ideias: os seus impulsos e as suas vontades de fantasia nem sempre vão até o fim.
- Você pode correr atrás de um capricho excêntrico, deixar de lado as suas responsabilidades e se deixar levar pelos seus instintos.
- Você pode correr riscos tolos e pode se mostrar irracional, crédula ou distraída.
- Você pode semear a desordem por confusão e por irresponsabilidade.
- Às vezes você se lança sem conhecimento nem reflexão.
- Você vive no mundo da lua: se projeta tão longe no futuro que perde de vista a sua situação presente e se expõe a graves perigos.
- A sua espontaneidade vem acompanhada de um julgamento insuficiente, e você pode revelar sem querer o que deveria guardar para si.
- Às vezes você se sente sem objetivo nem referências, empurrada pelos outros ou à mercê deles.
- Você é passiva e impulsiva, se deixa levar pelos seus instintos e pelas suas paixões e tem dificuldade de se dirigir e de resistir às influências que sofre.
- Você mostra nonchalance e indiferença e tem dificuldade de reconhecer os seus erros.
- Ao querer ultrapassar os limites do real, você corre o risco de divagar.
O que te ajuda
Ouvir o seu íntimo em vez de confiar apenas nos seus planos e nos conselhos práticos dos outros. Ficar no presente e manter esse olhar novo. Guardar os seus sonhos e os seus ideais, no lugar deles, sem perder de vista onde você está. Acolher bem os impulsos que lhe vêm. Fazer as grandes apostas na hora certa: há momentos em que a prudência é necessária e outros em que é melhor não fazer nada. Ouvir a sua parte instintiva em vez de negá-la, porque ela fica mais dura quando você a recusa. Aceitar que o domínio dessa parte instintiva venha mais tarde, por integração e não por supressão. Quando estiver de humor sombrio, não tente reprimi-lo: olhe a imagem do Louco ou pense nela, e isso levanta o seu ânimo.
O Louco, carta invertida
O Louco invertido fala da sua maneira de correr riscos. Você pode evitar correr riscos ou, ao contrário, correr riscos de forma excessiva e imprudente. Pode também lhe dizer para ser prudente, ou que é hora de crescer e assumir responsabilidades de adulta. Ele freia ou recusa a sua liberdade de espírito. Talvez falte aventura na sua vida, ou você resista às oportunidades de viajar.
Você pode não querer passar por louca, e isso a deixa preocupada demais em não fazer nada estúpido. Pode desconfiar de uma situação, com razão ou não. Ao se ater ao que é clássico e seguro, você toma limites por absolutos, ou não consegue confiar no futuro. Também pode ser preguiçosa e apática. Sem saber por onde começar, você se sente agitada, à deriva, e posta de lado pelos outros. Pode se sentir abandonada pelo espírito ou cheia de arrependimentos, e seus remorsos e suas tentativas de reparação nem sempre são levados a sério pelos outros.
Talvez você esteja deixando de notar um aviso, de seguir seu instinto, ou sendo negligente e indiscreta. Pode procurar se proteger para não ser pega em falta ou para esconder um erro. Pode estar perseguindo uma empreitada vã, que lhe faz perder tempo sem render nada. Pode fazer de tudo para evitar a possibilidade de passar constrangimento. Se você projeta esta carta nos outros, os vê inocentes mas irresponsáveis, confiantes mas desatentos, incapazes de crescer; as palhaçadas absurdas deles a irritam e você não confiaria neles. A carta também pode marcar uma mudança súbita de opinião sobre pessoas ou ideias que você achava estúpidas antes.
No plano psicológico, ela representa a sua criança interior: quando você não a reconhece, ela se manifesta na hora errada; quando a reconhece, ela lhe permite brincar com as situações e continuar aberta às possibilidades.
O que te freia
- Você evita todo risco, ou corre riscos de forma excessiva e imprudente.
- Você é negligente, distraída e às vezes indiscreta, e deixa passar um aviso.
- Você toma decisões ruins e hesita.
- Você se sente esgotada, apática, abandonada ou cheia de arrependimentos.
O que te ajuda
- Reconsiderar as decisões possíveis e olhar outras opções.
- Reconhecer sua criança interior para brincar com as situações e continuar aberta.
- Se confiar ao espírito com inocência, encontrar o maravilhoso nas coisas de todos os dias, e entrar num percurso de iniciação cujo fim você não vê.
O que a carta mostra
O que a imagem mostra
Um jovem de roupas ricas para na beira de um precipício, no alto de grandes alturas. Ele olha a extensão azul do céu à sua frente mais do que o vazio sob os pés, e a beira não lhe causa medo. Seu passo é leve, como se a terra mal o segurasse, e seu rosto está cheio de inteligência e expectativa. O sol brilha atrás dele, e um cão salta ao seu lado. Ele segura uma rosa numa das mãos e um bastão na outra, com uma bolsa bordada pendurada no ombro. Representa o espírito em busca de experiência.
O cão
Em quase todos os baralhos, o Louco anda com um companheiro animal: cão, gato ou crocodilo, conforme o baralho. Esse animal figura as forças da natureza e a parte animal do ser humano, em acordo com o espírito que age por instinto. Se você nega seu mundo interior, ele se torna feroz; se você o escuta, ele se torna dócil. No Tarô de Marselha, o cão morde a roupa na altura da coxa. Já se leu aí o instinto que atrapalha, a sociedade que se volta contra quem sai da fila, ou as forças obscuras que tentam desviar alguém do seu caminho. O Louco não se vira, não bate no animal e não muda o passo. A mordida lembra que se começa a avançar antes de estar em paz consigo: a parte instintiva puxa e retém, e é integrada mais tarde, sem ser suprimida.
A rosa, a bolsa e o bastão
Ele não os abandona e não deixa de ter pensamento, mas eles não o comandam como nossas lembranças e nossos traumas muitas vezes nos comandam. Os sinais quase invisíveis na bolsa mostram que muitas lembranças inconscientes ficam guardadas na alma. A bolsa traz uma cabeça de águia, símbolo do espírito que se eleva. O bastão apoiado no ombro parece o de um vagabundo, mas é uma varinha, símbolo de poder. O Louco a segura tão displicentemente que mal se nota, enquanto o Mago e o Carro a seguram com consciência da sua força. No Tarô de Marselha, o bastão é o do viajante e do peregrino, e a sacola contém só o necessário: ele parte leve, sem sinal de poder nem de riqueza, sem plano visível.
O traje
No Tarô de Marselha, o Louco usa um gorro com guizos, roupas coloridas em vermelho, azul e amarelo e uma túnica curta: o traje do bobo da corte. O bobo era ao mesmo tempo marginal e protegido, e podia dizer ao soberano o que ninguém mais ousava dizer. O traje designa, então, alguém que questiona a ordem estabelecida pelo distanciamento e pela margem, e não pelo confronto. Ele fica fora das convenções e não é prisioneiro do sistema social ao qual os outros ainda pertencem. Está disponível, e a ignorância não o descreve.
O número 0
Ele leva o 0 porque tudo é possível para quem está sempre pronto para ir em qualquer direção. Sua inocência lhe dá um passado vazio e, portanto, um futuro sem limite: cada instante é um novo começo. O 0 tem a forma de um ovo, para dizer que tudo sai dele. O zero designa a unidade primeira, antes de qualquer começo, que não se pode sentir nem definir. O precipício tem outra leitura: mesmo na beira, sobra lugar para mais um passo. O Louco significa também a viagem para fora, o estado da primeira emanação, a graça e a passividade do espírito.
Sua posição na série
O Louco fica onde há uma transição difícil. Ele abre a série, na passagem do mundo comum dos Arcanos Menores para o mundo dos arquétipos. Também ajuda a atravessar os intervalos entre duas fileiras, do Carro à Força, da Temperança ao Diabo. Acompanha as cartas de passagem difícil, como a Lua e a Morte, em que incentiva a continuar apesar do medo. Entre os menores, liga-se aos Paus (ação, impulso, movimento sem reflexão) e às Copas (imaginação, instinto). No Tarô de Marselha, é o viajante que atravessa todas as experiências humanas figuradas pelas outras cartas, antes do Mago como pura possibilidade e depois do Mundo como recomeço. Está associado ao Ar e à letra Álef: o sopro, o espírito, o impulso primeiro. Diante do Mundo, mostra a inocência onde o Mundo mostra a sabedoria. Não se volta à inocência do Louco: alcança-se a liberdade maior do Mundo pelo esforço, pela maturidade, pelo autoconhecimento e pela consciência espiritual.
O que a carta quer dizer
O Louco representa a inocência: uma liberdade e uma abertura totais para a vida, sem medo, por uma confiança completa na vida e no seu instinto. Isso não exclui a sexualidade, que se expressa então sem medo, sem culpa e sem cálculo. O Louco não espera nada e não planeja nada: responde à situação presente, e dá sua honestidade e seu amor naturalmente a todos, sem pensar. Numa tiragem, fala de coragem, otimismo e fé em si e na vida. Quando os outros pressionam você a ser prática, ele lembra que o seu íntimo sabe melhor o que você deve fazer. Pode simbolizar um começo: um salto para uma nova fase, dado a partir de um sentimento profundo e não de um plano. Também pode significar um impulso original, sutil e repentino, vindo de um lado inesperado; ele é certo se você o recebe bem, e o sentido da carta depende da sua atitude.
O lado frágil da imagem
À primeira vista, o Louco é alguém que olha o céu e vai cair de uma grande altura. O primeiro ensinamento é não se projetar tão longe no futuro a ponto de perder de vista onde você está. Os sonhos, as visões e os ideais têm seu lugar, mas quem se perde em coisas irreais se torna incapaz para os assuntos concretos. No sentido comum, a carta fala de distração, extravagância ou excentricidade. No Tarô de Marselha, está ligada à desatenção, à desordem, às promessas feitas de forma leviana e à insegurança.
Seus pontos fortes
A espontaneidade, a honestidade e o amor dados sem cálculo. A confiança no seu instinto. A disponibilidade e a liberdade diante das convenções. A capacidade de recomeçar: cada momento é um novo começo.
O que te freia
- Você não segue seus instintos, por medo ou porque depende demais dos planos e dos conselhos práticos dos outros, e deixa passar uma chance importante.
- Você age com imprudência ou por projetos loucos. Isso vem da mesma fraqueza: você não confia no seu interior para te guiar, e tem medo de não fazer nada.
- Você está com a cabeça nas nuvens e perde de vista sua situação presente.
O que te ajuda
- Saber que os grandes riscos se correm no momento certo: também há momentos em que a prudência, ou não fazer nada, vale mais.
- Escutar seu instinto e seu íntimo quando pressionam você a ser prática.
- Aceitar que sua parte instintiva te puxa e te retém: ela não se suprime, se integra com o tempo.
- Olhar a imagem quando você está de humor sombrio, sem tentar suprimir esse humor: ela dá um impulso positivo.
- Receber um impulso repentino com a atitude certa, pois é ela que decide seu sentido.
















