O Enforcado, carta na posição normal
O Enforcado diz que você está num tempo de pausa. O seu jeito habitual de avançar já não basta, e o que a guiava até agora deixa de guiá-la. O que vem depois já não passa pela afirmação da sua vontade: exige que você vire o seu modo de ver do avesso. Essa carta vem depois de uma tomada de consciência sobre o que você fez da sua vida e traz a paz da aceitação. As palavras que a resumem são provações e sacrifício.
Essa pausa é fecunda. O que se suspende é a agitação do seu eu, não a sua vida profunda. Você aprende a esperar, a receber e a continuar fiel ao que acredita, quando os seus antigos apoios já não bastam. Algo em você abre mão da sua antiga orientação para que outra se estabeleça. O que parece imobilidade prepara uma mudança, e o que parece perda leva a outro estado. O rosto do Enforcado expressa uma absorção profunda e não sofrimento: a carta mostra uma vida em suspensão. Ela sinaliza que um grande despertar interior é possível depois de uma provação.
Você põe a sua vida espiritual em primeiro lugar e busca sentido e sabedoria mais do que bens e informações. Pode querer se dedicar a uma causa ou a um projeto, ou reparar voluntariamente uma falta. Pode abrir mão de expectativas materiais e aceitar melhor as provações da vida. Pode sacrificar uma coisa menor por uma coisa maior, porém menos concreta, e o que importa nesse sacrifício é o seu consentimento. Você se sente próxima do místico, do curandeiro, do artista, do poeta e do sonhador, e dos paradoxos da vida. Pode ver por baixo das aparências, e uma dificuldade se torna uma oportunidade de adquirir sabedoria e compreensão. Intuições e indicações podem lhe vir por meio de sonhos e visões.
Você abre mão de si em favor dos outros. Deixa de se comportar como um centro de ação autônomo, se apaga e se põe à disposição do que age sobre você. Você viu que as ambições pessoais são vãs e compreendeu o valor de um sacrifício que vai até o esquecimento de si, sem esperar recompensa. As suas preocupações continuam voltadas para a terra: você busca o bem dos outros. O seu abandono confiante se traduz numa despreocupação serena. Sem se apegar a nada, você dá com generosidade o que compreendeu e aprendeu, bem como o seu afeto e os seus bons sentimentos. A sua influência se exerce em silêncio, sem grandes discursos nem atos que chamem a atenção. Você aceita voluntariamente uma aparente impotência, que lhe permite agir com eficácia à sua maneira. Um projeto que amadurece na reserva e no silêncio, longe da agitação, ganha força.
Essa carta traz uma mensagem de independência: você é o que é, mesmo que os outros achem que você vê tudo ao contrário. Você se sente profundamente ligada à vida, e a paz que se instala depois de uma provação difícil pode fazer parte disso. Onde os outros se agitam, você conhece a calma. Muita gente se julga livre quando forças que não compreendem a empurram de uma coisa para outra, e você ganha uma liberdade real ao compreender essas forças. Você sente a força da vida interior no meio de uma grande calma. Você vive a vida pela sua consciência interior, enquanto a carta da Imperatriz a vivia pelo envolvimento das emoções. Nessa etapa, você só consegue manter uma consciência espiritual profunda se se retirar da sociedade.
Você vira do avesso o seu modo de ver a sua situação e se liberta da submissão às aparências. Compreende que os segredos da vida não estão na superfície e que é preciso ficar imóvel para saber. Você se vê como um meio pelo qual uma força maior age, e isso dá importância à sua pessoa.
O que te freia
- Você pode se sentir vítima, impotente para escapar do seu destino, punida, cheia de pena de si mesma, confusa, perdida ou travada sem avançar.
- Você pode se sentir humilhada, exposta ao ridículo ou às críticas, quer as mereça ou não.
- Você pode se deixar levar por fantasias e ilusões.
- Esses estados vêm sobretudo quando você continua agarrada a preocupações materiais e evita o que a sua evolução interior lhe pede.
- Quando você resiste a esse processo interior, se vê encurralada contra a vontade e se sente vítima.
- Você pode deixar projetos incertos pelo caminho ou abrir mão deles.
- Você pode sonhar sem ter domínio sobre a realidade material, e as suas ideias podem se tornar utópicas.
- Os seus ideais podem ser elevados demais para se realizar na prática.
O que te ajuda
- Fazer uma pausa e se perguntar ao que você realmente se apega.
- Soltar o seu intelecto e a sua vontade pessoal por meio da oração e da meditação, confiando-se a algo maior do que você.
- Encarar esse período como uma oportunidade de adquirir sabedoria e compreensão.
- Consentir na pausa, esperar e receber, e continuar fiel ao que você acredita quando os seus apoios já não bastam.
- Fazer do abandono um processo ativo: participar em vez de olhar de longe. Para muitas pessoas hoje, isso consiste em liberar emoções mantidas trancadas durante anos.
- Acalmar a sua mente pela concentração e suspender o encadeamento dos seus pensamentos.
- Deixar um projeto amadurecer na reserva e no silêncio.
- Dar sem medir o que você adquiriu, em benefício de quem vai aproveitar.
- Continuar sendo você mesma, mesmo que os outros achem que você vê tudo ao contrário.
- Levar em conta os seus sonhos e as suas intuições como uma indicação.
O Enforcado, carta invertida
Você dá a impressão de estar pronta para agir quando não tem nada a fazer. Pode parecer melhor do que é, querendo fazer boa figura e agradar, enquanto outros motivos ficam escondidos. Seus objetivos podem ser egoístas, ou você pode estar ocupada com a sua própria agenda e o seu próprio ponto de vista. Também pode estar absorvida pelo material. Você se mostra disposta, mas pode voltar atrás na palavra quando seria preciso abrir mão de algo. Acontece de você não aceitar nem a ideia de fazer um sacrifício. O sacrifício também pode ficar parcial, inútil ou nunca realizado, e projetos ou ideias ficam sem se realizar.
A carta invertida diz também que você luta contra uma parte de si mesma. Pode negar uma parte essencial do que você é, ou recusar aceitar a realidade e lutar sem parar contra a vida. Ao opor seu ego ao mundo, você nunca vive plenamente o que atravessa. Você também tem dificuldade para se desprender da pressão social: faz o que os outros esperam ou exigem de você em vez de escutar o seu interior. Seu jeito de viver fica então de segunda mão, feito de modelos copiados, como quando se regula a conduta pelas ordens dos pais.
Em outro registro, você pode se sentir encurralada, acuada e à mercê dos outros, ou recém-liberada de uma forma de coerção. Você está impaciente para partir, mas obrigações e pequenas preocupações ainda a seguram. Também pode se sentir punida ou abandonada por uma causa inútil, injusta ou sem esclarecimento. Acusações injustas ou uma situação de coerção são possíveis.
Pode ser, por fim, que você esteja apenas despertando para a sua situação, sem ainda ver suas opções. Você pode estar num ponto de virada interior, procurar uma direção e esperar um sinal. Talvez seja mais vulnerável do que parece: quer fazer o bem, mas não sabe por onde começar, ou fica presa na procrastinação.
Seus pontos fortes
Você sente a necessidade de encontrar uma direção e procura uma referência para se orientar.
O que te freia
- Você se preocupa sobretudo consigo e com o seu ponto de vista, e seu objetivo pode ser egoísta.
- Você promete, depois não cumpre a palavra quando isso exige um sacrifício.
- Você pode assumir um ar de superioridade, sem estar apegada a nada de sólido.
- Você pode ficar sem âncora, entediada e apática, sem saber aonde ir.
- Você resiste ao que sua situação lhe pede, e se sente então encurralada e vítima.
- Você se conforma ao que esperam de você em vez de escutar o seu interior.
- Você adia o que tem a fazer por dúvida sobre como começar.
O que te ajuda
Olhar as outras cartas da tiragem para encontrar mais indicações quando você se sentir muito vulnerável. Soltar o intelecto e a vontade pessoal pela oração, pela meditação e pela entrega a algo maior do que você, o que a faz sair do sofrimento quando você resiste à sua evolução interior. Aceitar a realidade e o que você é, mesmo que os outros achem que você vai na contramão. Aceitar esperar e receber quando seus antigos apoios já não bastam.
O que a carta mostra
O que a imagem mostra
Um homem está pendurado por um pé numa travessa de madeira, de cabeça para baixo. Seus braços estão amarrados atrás das costas. A perna livre passa por trás da outra e forma uma cruz. Seu rosto está calmo, às vezes luminoso, e nada lembra o sofrimento de um suplício. Em certas versões, uma auréola envolve sua cabeça.
A forca
Em certas versões, ela tem a forma de um T, uma cruz chamada cruz Tau, e a árvore está viva, com folhas. Em outras, é feita de duas árvores com os galhos cortados, ligadas por uma travessa. O T é a metade de baixo do ankh, a cruz da vida dos egípcios, o que faz dessa árvore uma árvore da vida. Também lembra a árvore do mundo na qual Odin se pendurou: ela parte do inconsciente, atravessa o mundo físico e alcança o supraconsciente. O Tav é a letra da carta do Mundo. 12 é 21 ao contrário, e se você inverter o Enforcado, obtém quase a figura da dançarina do Mundo. O Enforcado mantém os braços atrás das costas e se retira da sociedade, enquanto a dançarina abre os braços: ele vive a mesma consciência, mas sem agir para fora. As doze cicatrizes dos galhos cortados remetem aos doze signos do zodíaco.
As cores e os detalhes
A carta está ligada à letra Mem, que quer dizer “águas”, portanto ao elemento Água. O casaco azul remete à água, como o vestido da Sacerdotisa. As pernas vermelhas, que formam um 4, remetem ao Imperador e ao uso ativo da força: mesmo na imobilidade, há uma intensa atividade da mente. A corda branca, presa no meio da travessa, indica que a suspensão repousa na concentração. A travessa amarela representa o pensamento fixado em doutrina, à qual o Enforcado adere com todo o seu ser. Na túnica, o vermelho significa a atividade e o branco a pureza de alma e de imaginação. Os discos verdes nas pontas dos membros e na cabeça representam a graça e a esperança. Uma serpente envolve o pé esquerdo: representa o que faz as coisas mudarem.
Os números
12 é 4 vezes 3: o 4 da terra e do mundo consciente, o 3 da água e do inconsciente. Na multiplicação, os dois números se dissolvem para formar algo maior que a soma deles. 1 mais 2 dão 3: a Imperatriz sente a vida pelo envolvimento emocional, o Enforcado a sente pela consciência interior. O personagem parece ser o mesmo do Mago.
O que a carta quer dizer
A carta vem depois da Justiça: é a paz que se segue ao momento em que você vê o que fez da sua vida. A inversão do corpo mostra uma inversão de atitude e de experiência. Os hábitos de querer, a inteligência comum e os apegos passam ao segundo plano, e o que parecia secundário ganha importância. A carta mostra uma parada da vontade pessoal e da agitação do eu, para que uma orientação mais alta apareça. Você deixa de buscar conquistar, consente; aprende a esperar e a receber. Esse consentimento exige fé e atravessa um tempo de prova e de paciência. Se entregar é um ato que você faz, e não uma espera passiva. A calma do Enforcado vem de ele ter se entregado ao ritmo da vida. Para muita gente hoje, essa entrega consiste em liberar emoções guardadas e trancadas por anos. A carta representa também a independência: ser quem você é, mesmo que os outros achem que você faz tudo ao contrário. Significa o sentimento de estar profundamente ligada à vida, e uma paz que chega depois de uma prova difícil. Diz a vida em suspensão, e não a morte. Anuncia que um grande despertar é possível e que depois da morte vem a ressurreição. A imagem do sacrifício se entende no sentido de “tornar sagrado”: o que importa é o consentimento. Nos antigos baralhos italianos, a figura mostrava a punição pela vergonha reservada aos traidores. Esse sentido de vergonha e impotência aparece quando você fica presa nas preocupações materiais e evita a etapa seguinte. O sentido profundo é a rendição a um ponto de vista oposto, uma inversão da consciência em que a vida espiritual passa em primeiro lugar. Você vê então por baixo das aparências, e a adversidade se torna uma ocasião de adquirir sabedoria e compreensão. O pé livre e o pé amarrado mostram também o bloqueio da vida quando um conflito interior se torna duro demais: você quer avançar por um lado e o outro lado recusa. O Enforcado representa também a pessoa que renuncia a si mesma em favor dos outros. O Mago afirma sua vontade e sua inteligência; o Enforcado se apaga e se põe à disposição do que age sobre ele. Sua cabeça voltada para a terra indica uma dedicação voltada para o bem dos outros, sem esperar recompensa. Ele parece imóvel, mas seus pensamentos, suas aspirações e seus sentimentos atuam ao longe. Na prática da meditação, a carta evoca também a suspensão da agitação mental, quando se para de encadear ideias. Nas tiragens, é associada à sabedoria, à circunspecção, ao discernimento, às provas, ao sacrifício, à intuição.
Seus pontos fortes
A independência de espírito: você continua sendo você mesma, mesmo quando os outros não te entendem. A capacidade de ver por baixo das aparências e de tirar compreensão das suas provas.
O que te freia
- Você se sente vítima, sem poder, sem saída, punida ou humilhada.
- Você está confusa ou bloqueada, sem saber para onde vai, e sente pena de si.
- Você resiste ao processo de crescimento interior e fica empacada.
- Você não consegue se desvencilhar da pressão social e faz o que os outros esperam de você, sem viver as coisas diretamente.
- Você luta contra uma parte de si que recusa, ou não aceita a realidade.
- Você põe seu intelecto e sua vontade na frente, embora a carta peça para soltá-los.
O que te ajuda
- Tirar um tempo para parar e rever ao que você realmente se apega.
- Soltar o intelecto e a vontade pela oração e pela meditação.
- Aceitar as provas e o momento de espera sem lutar.
- Fazer da entrega um ato: ir ao encontro das suas emoções e deixá-las sair.
- Transformar sua dor em compreensão, e ver cada prova como uma ocasião de aprender.
- Ficar atenta aos seus sonhos e às suas intuições.
















