A Sacerdotisa, carta na posição normal
A Sacerdotisa, também chamada de Papisa, fala do mistério na sua vida: o que você não sabe e o que você não pode saber. Indica um período de retiro passivo, que pode ser um tempo de medo, mas também de beleza, e que a enriquece ao deixar despertar o que está dentro de você. Ela lhe propõe passar um tempo sozinha, se recolher na solidão e seguir os ritmos naturais do seu corpo. Você pode ter um pressentimento certo sobre uma grande questão sem conseguir ainda expressá-lo com clareza. Talvez você guarde um segredo ou proteja a sua vida privada. Motivações escondidas ou fatores que não se veem podem pesar numa decisão ou numa negociação.
A carta descreve também uma atitude: você pode parecer misteriosa, calma e distante, e ainda assim oferecer escuta e compreensão a alguém. Pode receber a ajuda ou o conselho de uma mulher sábia, de uma conselheira ou de uma mediadora, ou ser você mesma um ouvido atento para outra pessoa. Pode sentir um laço intuitivo com alguém. Para uma consulente, essa carta também pode representá-la.
A Sacerdotisa representa o conhecimento interior mais profundo, aquele que não se pode explicar com palavras racionais: tentar explicá-lo o limitaria e o deformaria. Ela mostra o que você carrega em si de possibilidades muito fortes que ainda não realizou, mas que sente serem possíveis. Representa também a memória: tudo o que você vive fica registrado em você, e você pode reencontrar isso ficando calma e descontraída em vez de forçar. Nos tarôs de Marselha, o seu saber é assimilado devagar, guardado junto dela sem ser proclamado: é um tempo de amadurecimento antes da ação. Esse silêncio é uma disponibilidade: esperar é ficar pronta e deixar aparecer o que ficaria escondido no tumulto.
Numa leitura de tiragem, ela também significa que algo escondido é revelado, com uma impressão de segurança e de domínio dos acontecimentos, e dá sentido às outras cartas.
Seus pontos fortes
Você busca um sentido mais profundo para a sua vida e o seu trabalho, e isso lhes dá mais valor.
O que te freia
- Você pode ficar passiva na hora errada ou por tempo demais, o que a enfraquece e lhe dá medo da vida e dos outros.
- Você tem uma forte intuição, mas não consegue traduzi-la em atos.
- Você prefere o retiro tranquilo à exposição que a vida com os outros exige.
- Uma vida inteiramente passiva a deixa apática, ansiosa e deprimida, porque a mente precisa de paixão e de ligação com o mundo.
- Você pode dissimular as suas intenções, guardar rancor, cair na inércia e na preguiça.
- Você corre o risco de se deixar levar pelo entusiasmo e perder o equilíbrio se não o mantiver.
O que te ajuda
Passar à ação: o que você sente como possível só se realiza se você agir. Usar a passividade como contrapeso da ação voltada para fora. Aliar uma lógica rigorosa e uma grande sensibilidade para compreender o que está escondido. Buscar um conselho ou uma orientação interior para escolher o seu caminho, um caminho do meio, sem extremos. Reunir os opostos. Não forçar para se lembrar: fique tranquila e descontraída, e o que você precisa vem à tona sozinho, desde que você tenha estado atenta na hora. Se dar um tempo de silêncio antes de falar ou agir, sem procurar obter tudo de uma vez.
A Sacerdotisa, carta invertida
A Sacerdotisa na posição normal fala de saber interior, intuição, mistério e recolhimento. Quando ela dá errado, mesmo na posição normal, indica uma passividade longa demais ou na hora errada, que leva à fraqueza e ao medo da vida e dos outros. Invertida, ela mostra essa parte interior que se bloqueia ou se vira do avesso.
Talvez você tenha dificuldade de acessar a sua intuição, de se lembrar dos seus sonhos ou de saber o que sente. Você pode estar cortada da sua sabedoria interior, ou recusá-la. Algumas pessoas se sentem mais à vontade com A Sacerdotisa invertida do que com as profundezas da carta na posição normal.
Esta carta vai a dois extremos. De um lado, você se abre por completo, não retém mais nada e se demora nas modas e nos flertes superficiais. Do outro, você fica ainda mais formal, mais séria no seu jeito de fazer as coisas ou mais fechada, e pode se sentir presa. Você pode ficar apagada ou provocante, ou ferver de agitação por faltarem escolhas.
Ao virar a carta, também surge o que falta à Sacerdotisa na posição normal: um impulso para a paixão e para um envolvimento profundo com a vida e com os outros, no plano emocional, sexual e competitivo. Mas esse movimento pode ir longe demais, e você perde então o que há de mais precioso: o sentido do seu mundo interior.
Nas suas relações, a carta invertida acentua a sensação de superficialidade e de distância, a menos que marque a sua volta ao convívio com os outros depois de um período de isolamento. Pode faltar companhia feminina, ou você pode se sentir traída por uma mulher. A sensação de solidão e a falta de confiança em você em geral aumentam, mas você também pode estar decididamente sozinha, por escolha. Se você é para alguém uma inspiradora ou um espelho, pode sentir uma perda de si mesma e duvidar da sua identidade. Segredos são revelados ou recusados, confidências se rompem, e intrigas perturbam as suas conversas. Sua calma e sua receptividade se abalam. Se você ousa agir fora das expectativas dos outros e se recusa a ser pisada, podem chamá-la de bruxa.
Esta carta também influi no seu modo de ver os outros. Você pode vê-los como sagrados e intocáveis, ou, ao contrário, como irracionais, volúveis e pouco confiáveis. Pode suspeitar que sejam frios, superficiais e pouco sinceros, ou achá-los delicados e frágeis. A Sacerdotisa reflete a sua parte feminina interior: o que você vê na carta invertida pode, portanto, incomodá-la.
Seus pontos fortes
Você pode sair do isolamento e se envolver profundamente com a vida e com os outros. Também pode assumir ficar sozinha e não depender de ninguém. Pode ousar agir fora das expectativas dos outros.
O que te freia
- Você tem dificuldade de ouvir a sua intuição, de guardar os seus sonhos e de identificar o que sente.
- Você passa de um extremo a outro: aberta e superficial demais, ou formal, fechada e presa demais.
- Você se sente sozinha e duvida de si.
- Você corre o risco de se perder quando serve de espelho ou de inspiradora para alguém, e de duvidar da sua identidade.
- Ao tentar se lançar na vida, você pode perder o contato com o seu mundo interior.
- Você projeta nos outros frieza, insinceridade ou inconstância, ou os coloca em um pedestal.
O que te ajuda
Reservar tempo sozinha, escutar os ritmos do seu corpo e da natureza, e buscar um conselho interior. Passar à ação para dar forma ao que você pressente, pois esse potencial não se realiza sem ela. Não se fechar numa vida inteiramente passiva, que leva à apatia e ao medo.
Amor
A carta invertida acentua a superficialidade e a distância nas relações, a menos que marque uma volta ao convívio com os outros depois do isolamento. Ela também pode trazer paixão e sedução.
O que a carta mostra
O que a imagem mostra
A Sacerdotisa é uma mulher sentada, imóvel, calma e silenciosa. Depois do Mago, que está de pé e age, ela marca a parada: ocupa o espaço em vez de atravessá-lo. Usa uma tiara e segura um livro no colo. Não abençoa, não proclama nada e não governa: guarda. Sua postura é estável e quase imóvel.
O livro
O livro fica perto do corpo dela, não está erguido para os outros. Segundo as versões antigas, está fechado ou entreaberto: o saber ainda não é entregue, está em reserva. Em outra versão, sua mão direita entreabre o livro dos segredos, e ela segura na mão esquerda chaves que abrem o interior das coisas. Uma das chaves é de ouro e corresponde ao Sol, isto é, à razão e à palavra. A outra é de prata e corresponde à Lua, isto é, à imaginação e à intuição. Isso quer dizer que é preciso aliar uma lógica rigorosa a uma grande sensibilidade para adivinhar o que está oculto. O livro ou o rolo que ela segura diz também que ela guarda as lembranças do passado. O saber que ele representa vem de uma assimilação lenta e de uma memória que se forma, não de uma demonstração.
As duas colunas e o véu
Ela está sentada entre duas colunas, na entrada de um templo, diante de um véu que esconde o santuário. A semelhança lembra que a gente agrupa naturalmente as imagens parecidas, e a oposição das cores lembra que a gente associa também os contrários: pensar na luz faz pensar na escuridão. Essas duas colunas representam a dualidade de partida: pai e mãe, sujeito e objeto, atividade e sensibilidade. A carta vem depois da Unidade e abre o domínio do dois, o da distinção. O véu representa o que se percebe das aparências, e as imagens do pensamento se projetam nele. Não significa que a verdade seja recusada. Indica que ela não se dá inteira de uma só vez. Quem se detém nas imagens do limiar se deixa fascinar. Quem se mostra digno pode ler no olhar da Sacerdotisa e não se deixa enganar por nenhuma ilusão.
As cores e as roupas
O azul domina na carta. É a cor mais fria, e se opõe ao vermelho quente do Mago. Ela veste azul escuro, com uma estola branca que forma uma cruz no peito. Usa um manto de púrpura com borda de ouro e forro verde. O verde é a cor da vitalidade das ideias vivas. A púrpura corresponde às aspirações mais elevadas, e a borda dourada às religiões. Um crescente encima sua tiara de prata: indica que seu ensino repousa na imaginação. A tiara tem dois diademas. O que toca a testa remete à filosofia oculta e ao hermetismo, e o mais alto à gnose, uma fé fundada no conhecimento. No Tarô de Marselha, a tiara tem três degraus e marca uma autoridade espiritual.
O chão, a almofada e a esfinge
Seu pé direito repousa sobre uma almofada, que representa o pequeno número de noções certas que se podem adquirir sobre o mistério.
O que a carta quer dizer
A Sacerdotisa representa uma autoridade que não vem da proclamação pública nem de uma instituição visível. Vem de uma profundidade guardada em si. Seu poder é o da consciência, não o do trono. Ela é o lugar onde o conhecimento se deposita, se estrutura e se fortalece, e designa também o estado interior capaz de recebê-lo. Não é uma figura de ignorância: sabe que nem tudo pode ser entregue de imediato, porque nem tudo pode ser recebido com a mesma profundidade. Corresponde à intuição, à adivinhação, à fé contemplativa e ao discernimento do mistério. A adivinhação que ela inspira serve para distinguir a realidade escondida atrás das aparências. Para quem tem intuição, os fenômenos são uma fachada que revela algo. Seu silêncio é uma forma ativa de disponibilidade: esperar é se manter pronta, e escutar é suspender o ruído para deixar aparecer o que ficaria coberto. Antes que o pensamento vire palavra, que a ideia tome forma e que a ação se desdobre, há um tempo de gestação, e a Sacerdotisa representa esse tempo. Ensina que a verdade se colhe na estabilidade mais do que se conquista na agitação. É só a partir dela que a ação pode deixar de ser um simples ensaio.
A memória
Representa a memória, essa parte de nós que guarda tudo o que vivemos, o trivial como o importante. Essa memória é completa e não melhora: o que se pode desenvolver é a capacidade de lembrar. Exige concentração e atenção, pois uma memória que parece falhar muitas vezes sofre de falta de atenção. Esquecer é tão importante quanto lembrar. A calma da Sacerdotisa diz que forçar para lembrar bloqueia a lembrança, enquanto, ficando tranquila, a lembrança sobe com facilidade, desde que a primeira impressão tenha sido nítida. Ela é calma, receptiva e, como diz seu título antigo, virgem.
Número e letra
O número 2 traz a ideia de desdobramento, em contraste com a unidade do 1. O nome da letra hebraica que lhe corresponde, Guímel, significa camelo e evoca a viagem e o transporte das notícias de um lugar a outro. O 2 acrescenta aí as duas extremidades de uma viagem e as duas pessoas que trocam uma notícia, a que fala e a que escuta. Ela é associada à Lua, astro feminino e universal. É também ligada a Ísis, a deusa da noite profunda. Numa versão moderna do tarô, ela traz um arco de Ártemis e aparece como aquela que inicia, aquela que faz o caminho começar.
O nome
Nos primeiros tarôs italianos do século XV, essa figura já leva o nome de Papisa. Sua presença num baralho surpreendeu por muito tempo: é uma autoridade feminina num mundo religioso dominado pelos homens. Em Besançon, foi substituída mais tarde por Juno, que mostra com uma mão o céu e com a outra a terra. Isso remete à ideia de que o que está em cima é como o que está embaixo, e de que o visível serve de símbolo ao invisível: é o ponto de partida do método por analogia, no qual repousa toda a ciência da Sacerdotisa.
O que te freia
- Você pode cair na inércia e na preguiça.
O que te ajuda
- Ficar calma e tranquila para deixar uma lembrança voltar, sem forçar.
- Ficar atenta ao que acontece no momento em que acontece, porque a gente esquece o que não notou de verdade.
- Consentir a um tempo de recolhimento e silêncio, sem forçar o conhecimento.
- Aliar a lógica e a imaginação para adivinhar o que está oculto.
- Dar tempo ao que você aprende para amadurecer antes de dizê-lo ou de pô-lo em ação.
















