O Diabo, carta na posição normal
Essa carta tem a ver, antes de tudo, com o medo, as mentiras e a ignorância, de onde vêm a dúvida e o pessimismo. Ela mostra o que detém, limita ou aperta a sua energia criadora e as suas ações, e pode remeter a culpas de infância. Você pode se sentir travada ou prisioneira de uma situação. No entanto, os laços da carta são frouxos e poderiam ser retirados: o que a prende se deve sobretudo à ideia de que nada mais existe. Com o tempo, você pode achar normal a sua situação penosa e até resistir à mudança. Também pode ver o mundo de forma materialista: acreditar que não há nada além do que se vê e se toca, e perseguir apenas desejos pessoais de dinheiro, de sexo ou de poder. Uma parte de você pode ser negada, não reconhecida ou escondida: é o que a psicologia chama de sombra. Você pode ser tentada pelo desejo, pela cobiça ou pelo orgulho, ou ficar obcecada por um relacionamento ou por um objeto cobiçado. Também pode se tornar escrava dos seus desejos em vez de agir como julga melhor. Com Os Enamorados, a carta indica uma relação nascida do amor que se tornou uma armadilha. Você também pode se sentir fortemente atraída por pessoas que não ama, com depois uma sensação de impotência e de vergonha. Por trás de tudo isso, muitas vezes há uma falta de amor e uma sensação de isolamento e de separação. A carta fala também do instinto, do inconsciente inferior e da impulsividade.
Eles não a governam para sempre: você se liberta deles aos poucos. Mesmo assim, precisa levar em conta a parte animal de você, que reclama os seus direitos, e tratá-la com equidade. Essa parte lhe permite viver materialmente e a arma para as necessidades da vida. Ela se torna um problema quando os seus impulsos perdem o equilíbrio entre si. A carta lhe mostra as coisas como elas aparecem, e não como são. Representa tudo o que lhe dá uma má opinião do seu próprio valor. Uma força que devia lhe servir de meio pode se tornar a sua senhora: um hábito, uma crença ou um sistema que você absolutizou acaba por capturá-la. Você pode se deixar levar pelo medo, pelo desejo de posse ou pelo fascínio do poder. No plano prático, a carta fala de força, de ardor e de esforços extraordinários. Evoca um impulso muito forte, a ambição, a tentação, a obsessão, um plano secreto prestes a ser executado, um trabalho duro, a obstinação, a rigidez, um descontentamento que dói e a resistência. Está ligada a Capricórnio e a Saturno, que dão o senso de si e a duração, e representa a energia criadora na sua forma mais material.
Seus pontos fortes
- Você tem ardor. Sem ele, a pessoa fica fria e sem poder sobre os outros, e é ele que lhe permite agir fora de você e influenciar.
- Você sabe trabalhar duro e aguentar firme.
- O seu orgulho pode se tornar dignidade, esse brio que recusa qualquer aviltamento.
- A sua raiva pode se tornar coragem e energia para agir.
- Você pode ser previdente e econômica e gostar honestamente do ganho, o que estimula o seu trabalho.
O que te freia
- Você tem medo, duvida e vê o pior.
- Você se sente limitada nas suas ações e na sua criatividade.
- Você se fixa no material e pode transgredir tabus sociais ou sexuais.
- Você é tentada a contornar as regras para servir aos seus interesses.
- Você procura vencer impondo um poder excessivo, ou abandona a sua vontade aos outros, ou quer dominá-los.
- Você teme que uma força externa cruel queira lhe fazer mal e pode procurar um culpado entre as pessoas que julga com preconceito e ódio.
- Você pode agir contra o seu próprio interesse e provocar ou irritar os outros.
- Você pode ceder a dependências ou a comportamentos compulsivos.
- Você pode agir por ciúme, inveja ou rancor e, às vezes, fazer mal de propósito.
- Você evita tudo o que julga ruim, o que também a limita.
- Falta-lhe humor consigo mesma, você é dogmática e só vê a superfície das coisas.
- Você pode ter êxito por meios desonestos, pela astúcia ou pela fraude.
- Você se atribui uma superioridade que não tem para mandar e, se tem opinião boa demais de si, corre o risco de ser enganada.
- Você pode exercer sobre os outros uma influência escondida, atuando no inconsciente deles, ou excitar os seus apetites e as suas paixões.
- Você pode se prender a uma armadilha cujas amarras já não vê, porque acha normal a sua situação.
O que te ajuda
- Tomar consciência do que a prende: enquanto você não vê, isso a comanda, e assim que reconhece, uma libertação se torna possível.
- Olhar de frente o que você vive, inclusive as forças sombrias, em vez de ignorá-las.
- Governar a si mesma, freando as suas inclinações inferiores, e comandar o seu próprio corpo.
- Tratar os seus instintos como um sócio inevitável, com equidade, em vez de como um inimigo.
- Se moderar em tudo: é apenas a falta de acordo entre os seus impulsos que se torna destrutiva.
- Transformar o seu orgulho em dignidade e a sua raiva em coragem.
- Se conceder o descanso necessário para se recuperar, e até descansar de antemão antes de um esforço.
- Escolher os seus alimentos e apreciar o sabor deles, sem viver só para comer.
- Ser previdente e econômica, sem avareza.
- Ter uma vontade firme, pura, sem egoísmo, e só dar ordens legítimas.
- Não procurar comandar as forças invisíveis por pequenos ganhos e se contentar em governar a si mesma.
- Buscar a paz interior antes de enfrentar as forças profundas de você: é ela que permite lidar com elas sem perigo.
- Compreender que as aparências que a assustam ou lhe dão uma má imagem de si não são a sua verdadeira natureza.
Amor
Uma relação começada no amor pode se tornar uma armadilha, e você pode ser atraída por pessoas que não ama, com vergonha depois. Você pode ficar obcecada por um relacionamento, com uma atração que a ultrapassa.
O Diabo, carta invertida
O Diabo na posição normal mostra o que limita, retém e prende a sua força de agir: o medo, a mentira, a ignorância, a dúvida e o pessimismo. Invertido, fala de um movimento para sair dessa influência. É a carta que vai mais longe nos extremos: numa ponta, o mal vence, você fica cega sobre si mesma, cede à tentação e segue todos os seus apetites. Na outra ponta, você se afasta do que a acorrenta e entra num caminho de compreensão espiritual. Você pode passar facilmente de uma ponta à outra, como quando se vai longe demais num sentido e se cai no sentido contrário.
No sentido da libertação, você tenta se livrar de uma miséria ou de uma amarra, real ou psicológica. Você já não aceita sua situação e avança em direção a mais liberdade. Na carta na posição normal, os personagens acorrentados continuam calmos, o que mostra que se aceita uma situação ruim, que se acaba achando-a normal e que se pode até lutar contra a mudança. Invertida, a carta indica que você toma consciência das suas correntes, pois não se pode tirá-las antes de vê-las. É justamente nesse momento que você sente mais forte a sua infelicidade e os limites da sua vida. Quem atravessa uma libertação, por exemplo sair da casa dos pais, fazer uma psicoterapia ou viver um divórcio difícil, muitas vezes se sente bem mais infeliz do que antes, quando aceitava a situação sem vê-la. Esse período pode ser decisivo para a sua evolução: se você o atravessa, sai dele mais feliz e com uma personalidade mais desenvolvida. Também pode lhe parecer insuportável a ponto de você voltar às suas correntes.
Você pode dizer não às tentações, afastar o que a prende e deixar uma situação desagradável. Se vê que seus medos não têm fundamento, se liberta das suas inibições injustificadas e dos seus padrões de manipulação e de dependência. Na maioria das vezes, toma mais consciência dos seus comportamentos destrutivos e do seu uso abusivo do poder. Chega também a um tesouro guardado e escondido: sua própria criatividade e sua alegria espontânea.
A carta invertida também pode ser o contrário. Você pode se sentir superior às fraquezas dos outros ou ser excessivamente correta, moral e virtuosa. Pode procurar desculpas em vez de olhar o quanto uma situação é ruim. Se você se recusa a ver em si essa parte sombria, a projeta nos outros e os vê como falsos líderes, manipuladores ou criadores de confusão. As fraquezas e as más ações de figuras públicas também podem desiludi-la. Por dentro, isso pode ser vivido em pesadelos, em fixação no pecado ou em pânico interior. Essa energia também pode sair em alegria e em comédia, do tipo que desinfla o mal e mostra o orgulho falso e os preconceitos indignos.
Colocada no passado, a carta invertida significa muitas vezes que a mudança aconteceu, mas que a tristeza, a raiva ou a depressão continuam, às vezes escondidas da sua consciência, e continuam a influenciá-la. Você muitas vezes precisa lidar com os demônios do passado, mesmo os que superou na prática há muito tempo. Seu psiquismo nunca solta nada e não esquece nada. Colocada em “esperanças e medos”, a carta invertida toca a passagem de uma situação fechada a uma situação aberta, e mostra que a segurança de continuar fechada às vezes vence a liberdade. Você pode ao mesmo tempo desejar essa mudança e temê-la.
Para uma mulher, a carta invertida descreve o momento em que seu adversário interior, sua parte sombria, a acusa de ser a culpada e lhe impõe tarefas impossíveis que despertam todo o seu medo de não estar à altura. Se ela evoluiu o bastante, reconhece nele o guardião do limiar das suas próprias capacidades criativas e faz dele um aliado.
Seus pontos fortes
Você é capaz de se afastar do que a retém e de se livrar do que a prende. Pode deixar um trabalho que a desgasta, em que você se sente possuída pela empresa. Pode tomar consciência dos seus comportamentos destrutivos. Pode se libertar das suas falsas inibições e das suas relações de manipulação ou de dependência. Pode rir do que é falso e pretensioso. Pode reencontrar sua criatividade e sua alegria espontânea.
O que te freia
- Você aceita sua situação há tanto tempo que a acha normal, e pode resistir à mudança.
- Você se sente mais infeliz no momento em que toma consciência das suas correntes, e pode voltar a elas porque o período é penoso demais.
- Você guarda em si a tristeza, a raiva ou a depressão de uma provação passada, mesmo quando a resolveu na prática.
- Você procura desculpas em vez de olhar o quanto a situação é ruim.
- Você se sente superior às fraquezas dos outros ou correta e virtuosa demais.
- Você projeta nos outros o que se recusa a ver em você.
- Você se sente inadequada diante das tarefas que sua parte sombria lhe impõe.
O que te ajuda
- Olhar suas correntes de frente: só se pode tirá-las depois de vê-las.
- Atravessar o período difícil da libertação, que é decisivo para o seu desenvolvimento.
- Examinar sua atitude diante da mudança, pois uma ambivalência entre desejo e medo aparece muitas vezes, e reconhecê-la a ajuda a construir o que você realmente quer.
- Usar e transformar o saber e a energia ligados a cada experiência passada.
- Reconhecer na sua parte sombria o guardião das suas capacidades criativas e fazer dela uma aliada.
Trabalho
Você pode deixar um trabalho que destrói a sua alma, em que você se sente possuída pela empresa ou presa a ela para pagar suas contas. No trabalho, você pode esperar o sucesso e temê-lo ao mesmo tempo.
Amor
Nas relações, muita gente teme o amor que procura ou espera pela metade ser rejeitada. Um divórcio difícil faz parte das libertações que tornam a pessoa primeiro mais infeliz.
O que a carta mostra
O que a imagem mostra
A carta mostra uma criatura híbrida, misturando o humano e o animal, de pé sobre um pedestal, com duas pessoas acorrentadas diante dela. Essa criatura é um bode com asas de morcego, erguido sobre um altar. Representa o Baphomet dos Templários, que vem do bode de Mendes e do deus Pã. É andrógina: tem cabeça e pernas de bode, peito e braços de mulher. Como a Esfinge, reúne em si os quatro elementos.
Uma mão está levantada e aberta, ao contrário do gesto de bênção do Hierofante (carta 5). Na outra mão, ele segura uma grande tocha voltada para o chão. Um pentagrama invertido está posto na sua testa. O signo de Mercúrio está marcado no ventre. Seu pedestal não é um cubo perfeito como o trono do Imperador: é achatado.
Um anel está fixado diante do altar, e duas correntes partem dele até o pescoço de um homem e de uma mulher. Lembram as duas figuras da carta do Hierofante, como Adão e Eva depois da queda. Têm uma cauda, sinal da sua natureza animal, mas seus rostos continuam humanos. Estão presos a um meio cubo, que figura o conhecimento parcial do mundo material. Seus rostos estão calmos: aceitam uma situação ruim.
O que os detalhes significam
O corpo grosso e peludo evoca a terra e a matéria. As asas de morcego, asas da noite, figuram as forças ocultas que deslocam e transformam as forças do mundo material e do instinto. As garras de águia remetem ao Escorpião. O signo de Mercúrio no ventre mostra o controle que a mente consciente exerce sobre essa força. A mão levantada traz o signo de Saturno. Seu gesto diz que não há nada escondido e que o que você vê é tudo: é o primeiro erro, aquele de onde vêm os outros. Esse gesto também pode ser lido como uma visão que não esconde mais nada. O pentagrama invertido mostra os poderes do ser humano postos às avessas, quando ele se compreende mal a si mesmo. Na versão em que está desenhado, os chifres em espiral figuram o movimento de uma força que atravessa tudo.
O que a carta quer dizer
O Diabo é a carta da aparência: a letra que lhe corresponde significa o olho e também o aspecto exterior. A carta mostra as coisas como parecem, não como são. A palavra “diabo” vem de uma palavra grega que quer dizer caluniador. A carta representa tudo o que te dá uma má opinião do seu próprio valor. Mostra o medo, as mentiras e a ignorância, que levam à dúvida e ao pessimismo. Mostra o que freia, limita e aperta a sua força criadora, e pode remeter a culpas da infância.
Diz também a servidão: o ser humano se torna prisioneiro dos seus próprios poderes inferiores e se deixa governar por eles em vez de governá-los. Designa o fascínio, a sujeição e a inversão que atuam sobre a consciência. Mostra o que te captura: o medo, o desejo de possuir, o fascínio do poder, as ilusões que paralisam seu impulso. Os pensamentos coletivos, as paixões alimentadas, os desejos repetidos e as crenças carregadas de emoção podem se tornar forças que exigem ser servidas. O que devia ser um meio se torna um senhor. Quem domina as duas figuras não é senhor delas para sempre: também está acorrentado, sustentado pelo mal que carrega dentro de si.
A carta fala do instinto e do egoísmo. O Diabo leva cada ser a fazer tudo girar em torno de si, como se fosse o centro de tudo. O desejo de ser e o instinto de conservação vêm dele: devemos a ele nossa existência material. Ele nos possui ao nascer, mas essa posse não é definitiva, pois estamos destinadas a nos libertar aos poucos da tirania dos nossos instintos. Suas desordens nunca são definitivas.
Por fim, não existe um princípio do mal independente. O Diabo designa o poder de materialização que parece dividir a vida única em vidas separadas, e esse mesmo poder acaba por libertar quando se compreende o que ele é. A vontade que faz o mal vem da ignorância.
Quando a carta aparece numa tiragem
Pode indicar uma visão estreitamente materialista, ou uma miséria e uma depressão em que você se sente acorrentada, com a ilusão de que não existe outra saída. Diz a escravidão dos seus desejos, em vez de agir como você acha que seria melhor. Pode dizer uma obsessão que te controla, ou uma forte atração por pessoas de quem você não gosta, com a impotência e a vergonha que se seguem. Com a carta dos Enamorados, mostra uma relação nascida do amor que virou uma armadilha. Nas suas formas mais brandas, você age “diabolicamente”, faz o que te prejudica, rompe tabus, se fixa no material ou dobra as regras a seu favor. Nas suas formas mais duras, você busca o ganho por um poder excessivo, abandona sua vontade aos outros ou quer dominá-los, teme uma força cruel que te quer mal, e aponta bodes expiatórios. No fundo, há uma falta de amor e um sentimento de isolamento.
Invertida, a carta indica que você tenta se libertar de uma miséria ou de uma servidão, real ou psicológica. Você não aceita mais sua situação e avança para a liberdade. É justamente nesse momento que você mais sente sua infelicidade, pois é preciso tomar consciência das correntes antes de tirá-las. Esse período pode ser decisivo: se você o atravessa, sai mais feliz e mais firme. Às vezes ele se torna penoso demais e você volta às suas correntes. No passado, a carta invertida diz que a mudança aconteceu, mas que a tristeza, a raiva ou a depressão continuam, às vezes escondidas.
Seus pontos fortes
Você sabe apreciar tudo o que existe, até o áspero.
O que te freia
- Você se deixa governar pelos seus desejos e medos em vez de decidir por si mesma.
- Você acredita que o que vê é tudo o que existe, e que você não tem outra saída.
- Você duvida de si e se torna pessimista por medo, por erro ou por ignorância.
- Você carrega culpas vindas da infância.
- Você aceita uma situação ruim como normal, a ponto de resistir à mudança.
- Você cede à atração por pessoas de quem não gosta, e sente vergonha depois.
- Você pode abandonar sua vontade aos outros ou querer dominá-los.
- Você pode se sentir isolada, por falta de amor.
O que te ajuda
Reconhecer suas correntes: enquanto ficam invisíveis, elas dominam, e uma vez vistas, a libertação se torna possível. Tratar seu instinto com justiça, sem combatê-lo como um inimigo. Se moderar em tudo, e tirar o repouso de que você precisa. Agir com uma vontade pura, sem egoísmo, e com ordens legítimas. Prestar atenção, observar, interpretar corretamente e fazer bons planos. Buscar primeiro a calma interior antes de ir para as forças profundas. Usar e transformar o saber e a força contidos em cada experiência, inclusive as do passado.
















